Canetas, o imperativo do gozo e sofrimento psíquico.
- Marilia Antunes
- há 1 dia
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Que os medicamentos à base de GLP-1 são uma febre, todo mundo sabe. O que pretendo discutir é: por que mais de 20 anos se passaram desde o lançamento global da premiada campanha Dove – Beleza Real, em 2004, pela Unilever, além de outras tantas iniciativas de aceitação da diversidade de corpos, e ainda seguimos presos a padrões tão rígidos? Padrões estéticos muitas vezes reembalados em discursos de bem-estar, saúde e qualidade de vida. E mais, parece que voltamos algumas casas atrás no jogo do espelho e na lógica da magreza. Já que essas “canetas” prometem um ideal totalizante, corrigindo as falhas, assinalando o que é certo ou errado, reescrevendo a imagem de um corpo sem resto, sem excesso.
Na psicanálise, dizemos que o que uma geração não elabora, a seguinte recalca e a próxima manifesta os sintomas. Seriam as canetas o retorno de um ideal de beleza que ficou recalcado, ou pelo menos, tentou ser silenciado, mas que nunca deixou de operar? Um sintoma que agora se inscreve direto no corpo e repete: “Não, você não pode existir fora dos padrões” ou “Esse corpo não cabe aqui”. Ao que parece, o movimento que reivindica o direito de existir fora dos padrões está sendo literalmente reeditado, de forma avassaladora, dessa vez por uma caneta. Palavra que torna quase infantil e banal uma intervenção que na realidade é médica.
Esse texto não tem a intenção de fazer qualquer tipo de julgamento moral acerca do uso das canetas, mas refletir sobre o que, enquanto sociedade, recalcamos. Sabemos que, em qualquer processo de análise, elaborar leva tempo. Já corrigir e enquadrar, muitas vezes traz uma resposta rápida, perfeitamente adaptada à sociedade do imperativo do gozo, ainda que acompanhada por uma boa dose de sofrimento psíquico.
Talvez a reflexão não seja sobre as canetas em si, mas sobre a nossa dificuldade em sustentar a singularidade radical de cada existência humana e do nosso próprio desejo. As aplicações parecem funcionar como um atalho para lidar com esse impasse: não pela palavra, mas pelo apagamento. Mas, como a psicanálise nos lembra, aquilo que não se elabora não desaparece. Retorna. Muitas vezes, inscrito no próprio corpo, no ato, na angústia, na repetição.



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